Querido diário,
Hoje senti-me suja. Tive nojo de mim, dos pensamentos, da porcaria dos dias monótonos que tenho tido. Senti vontade de me arrancar deste corpo, de me separar de tudo aquilo que me diz respeito.
Não quis mexer-me, não quis ajudar, não quis falar.
Senti-me assim porque estava em baixo, triste.
"Não queria acreditar quando te vi, ali, de carne e osso, de novo, e a caminhar para mim. Soube, logo naquele momento, que tudo se repetiria. Chegaste, sorriste, disseste um 'Olá, tudo bem?', e tudo aconteceu de novo. Como da primeira vez, a insegurança, o riso parvo, o não saber o que dizer, o que fazer, para onde olhar...
Como consegues? Como me fazes sentir assim de todas as vezes que os nossos compromissos se cruzam? É incrível a forma como, naquele dia, me marcaste, me cativaste, a forma subtil mas perspicaz como criaste em mim um lugar para ti. Um lugar um pouco esquecido com a ausência sim, mas fundo. Fundo o suficiente para me deixares sem jeito de todas as vezes que nos reencontramos."
Por isso me senti assim hoje. Mal por depender tanto de alguém que nem conheço assim tão bem (tal tu próprio o disseste) e por ficar deste modo por ter de te virar as costas, depois de umas horas em que o espaço foi comum, mais uma vez...
Foi com este sentimento agarrado às costas que vagueei hoje pela casa, sem vontade de viver e/ou conviver. Foi com este sentimento que, finalmente, dei ordem aos músculos do corpo e fiz algo por mim, pela minha mãe e por todo o seu trabalho para manter a família viva.
Limpei, arrumei, lavei, cozinhei. Depois de tudo pronto, era hora de jantar.
Fui à casa-de-banho, peguei na escova e na pasta e levei ambos à boca. Fiz tudo desaparecer com um pouco de água. Deixei que esta me passasse pela boca, dentro e fora, deixei que me refrescasse, a pele e os sentimentos.
E foi assim que tentei acabar com todas as recordações deste dia, e do outro.
Lavei os dentes. Senti essa frescura.
O sabor amargo da solidão não passou...


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